Introdução da monografia

parte da monografia sobre os paralelos encontrados entre os conceitos junguianos e o conceito de Ori dos iorubás.

pedro de oxala

7/6/20262 min read

Este trabalho tem início na busca por capacitação em psicoterapia, no intuito de oferecer aos consulentes deste autor, enquanto Babalorixá de candomblé, um melhor acolhimento técnico e terapêutico. Visto que, sempre conflitado pela ideia hierárquica de ser um “pai de santo” na vivência de terreiro, notou-se que a projeção dos “filhos de santo” quanto a uma suposta responsabilidade absoluta sobre suas vidas operava de forma negativa no que condiz à evolução e ao crescimento pessoal que se espera de um adepto. Percebeu-se que se fazia constante a anulação da autorresponsabilidade perante os desafios e experiências que todos encontramos nos altos e baixos da vida; portanto, entregavam toda esta responsabilidade nas mãos do sacerdote, inclusive culpando-o pelas adversidades que resultavam de suas próprias escolhas erradas ou da falta de atitudes. Diante disso, firmou-se o propósito de transcender a atuação tradicional do pai de santo, direcionando a prática para uma fusão entre o manejo clínico da psique e os rituais de um sacerdote de candomblé, configurando a atuação de um “terapeuta sacerdote”.

Há anos atendendo com o oráculo do jogo de búzios, foi inevitável a percepção de que muitos indivíduos retornavam com as mesmas queixas algum tempo depois de realizados os rituais prescritos, notoriamente por manterem atitudes e práticas que o próprio oráculo havia apontado como ewó (tabu) ou como a razão primordial dos problemas enfrentados. Constatou-se, portanto, que toda a parte ritualística dos ebós e das comidas de santo, que aparentemente resolviam os obstáculos por determinado tempo, mostrava-se insuficiente se as pessoas 8 continuassem a “andar fora dos trilhos”, tanto em suas atitudes mentais quanto em seus comportamentos cotidianos, culminando no retorno de novos obstáculos semelhantes. Esse paradoxo clínico e espiritual despertou o interesse pelo estudo aprofundado da mente humana, encontrando na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung as ferramentas conceituais capazes de preencher essa lacuna, unindo a sabedoria litúrgica à transformação consciente do indivíduo diante de sua própria mente e de seu próprio Eu.

Assim sendo, o objeto central deste estudo consiste no estabelecimento de uma analogia estrutural entre o modelo de psique formulado por Jung e o conceito de Orí — que remete muito aproximadamente à alma para os iorubás —, pertencente à filosofia e à ontologia deste povo que, entre outros vindos do continente africano, deu origem aos terreiros das religiões diaspóricas em nosso país. Essa busca teórica ganhou contornos complexos à medida que se iniciou o estudo das Obras Completas de Jung, deparando-se com uma abordagem marcada por preconceitos em relação aos povos não europeus, em especial à população negra e às culturas de matriz africana. O uso repetido de termos como "primitivo" e "arcaico" para associar o homem negro a uma suposta inferioridade no desenvolvimento da consciência provocou, em um primeiro momento, um profundo desânimo e a tentação de interromper a própria caminhada formativa.

Contudo, na continuidade das leituras e reflexões, uma semelhança marcante e inegável entre os conceitos mais críticos da estrutura da psique junguiana e da ontologia iorubá pôde ser notada, compreendendo-se que a decisão de escolher a psicologia analítica para ampliar e contribuir com os atendimentos e a missão sacerdotal não havia sido errada. Ora, se existiam tantos paralelismos e pontos de convergência tão profundos, não fazia sentido que Jung mantivesse uma abordagem preconceituosa em relação ao povo preto; tal postura decorria da evidente falta de acesso e conhecimento de Jung a respeito da ontologia e da sofisticada filosofia iorubá na época em questão. Movido pelo desejo de reparar essa assimetria histórica e descolonizar esse saber, este estudo se propõe a explorar a seguinte pergunta norteadora: quais são as correspondências e analogias estruturais possíveis entre a psique na psicologia analítica junguiana e as dimensões do conceito de Orí na filosofia tradicional iorubá?

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